Durante anos, as empresas avaliaram a literacia digital dos trabalhadores pela capacidade de utilizar um computador, preparar uma folha de cálculo ou gerir o correio electrónico. A inteligência artificial alterou esse referencial. Trabalhar com tecnologia já não significa apenas dominar uma aplicação. Exige compreender o que pode ser delegado, identificar erros e assumir a autoria do resultado.

A pergunta, por isso, vai além de saber se quem ignora a IA perderá relevância profissional. Também importa perceber se as empresas estão preparadas para ensinar as suas equipas a utilizar estas ferramentas com método e critério.
A resposta não é igual para todas as profissões. Quem não desenvolver competências para utilizar e avaliar sistemas de IA poderá perder oportunidades, mas a adaptação também depende da formação, das ferramentas e das regras disponibilizadas pelas empresas.
As competências em inteligência artificial deverão adquirir maior peso nas carreiras ligadas ao desenvolvimento de software, análise financeira, marketing, comunicação ou apoio ao cliente. Esta tendência já se reflete nos processos de trabalho, mas seria redutor apresentar o debate como uma escolha individual entre aprender ou perder espaço.
A capacidade de adaptação depende das ferramentas disponibilizadas pela organização, da formação recebida, do tempo reservado à aprendizagem e da existência de regras claras. Se uma empresa adota sistemas de IA sem criar estas condições, transfere para o trabalhador a responsabilidade por uma transformação que a gestão decidiu iniciar.
Usar IA no trabalho exige mais do que saber escrever instruções
A facilidade de acesso criou uma falsa perceção. Como qualquer pessoa pode abrir um assistente e escrever uma instrução, tornou-se comum pensar que estas plataformas dispensam aprendizagem.
A prática mostra o contrário. Uma resposta bem articulada pode conter erros. Um resumo pode omitir o dado mais relevante de um relatório. Uma análise pode reproduzir preconceitos presentes nos dados de treino. Uma referência bibliográfica pode ter sido fabricada pelo sistema.
Saber trabalhar com IA começa antes do envio do pedido. Exige escolher a ferramenta, definir o objetivo e avaliar os dados que podem ser partilhados. O processo continua depois da resposta, através da verificação dos factos, da comparação com fontes e da revisão do resultado.
A OCDE define a literacia em IA como o conjunto de competências que permite avaliar estas tecnologias de forma crítica, comunicar com os sistemas e utilizá-los em contextos pessoais e profissionais. Esta definição afasta-se da ideia de que basta memorizar fórmulas para escrever instruções eficazes, ou prompts.
Produzir mais depressa não significa produzir melhor. Um profissional pode criar um documento em poucos minutos e entregar um trabalho deficiente. Pode aceitar uma conclusão convincente assente em premissas falsas ou partilhar informação confidencial num serviço externo sem avaliar as consequências.
Se o tempo poupado na produção for gasto na correção de erros, na resolução de incidentes de segurança ou na recuperação de dados expostos, o ganho de produtividade desaparece.
É neste ponto que o conhecimento da matéria adquire maior relevância. A tecnologia propõe, organiza e sintetiza. A validação exige contexto, experiência e capacidade para reconhecer uma resposta inadequada.
Quanto maior for o impacto de uma decisão no negócio, menos aceitável será confiar de forma automática no resultado produzido pela máquina.
A IA transforma tarefas antes de eliminar profissões
O debate público oscila entre o receio da substituição em massa e a expectativa de que a IA libertará os trabalhadores das tarefas repetitivas. A realidade das empresas não cabe por inteiro em nenhuma destas leituras.
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho, publicado em maio de 2025, estima que um em cada quatro empregos apresenta algum grau de exposição à IA generativa. A organização considera, contudo, que a transformação das funções será mais provável do que a substituição integral dos postos de trabalho.
Esta distinção é necessária. Uma profissão reúne tarefas diferentes. Algumas podem ser automatizadas, outras recebem apoio tecnológico e várias continuam a exigir intervenção humana.
Um contabilista pode recorrer à IA para classificar documentos sem delegar a validação das contas. Um jurista pode acelerar a pesquisa de legislação, mas não deve subscrever referências que não verificou. Um jornalista pode utilizar uma ferramenta para transcrever uma entrevista e continua responsável pela exatidão do texto publicado.
A pressão também não se distribui de forma uniforme. Os profissionais que executam tarefas padronizadas podem enfrentar maior risco de desvalorização. Quem combina conhecimento técnico, compreensão do negócio e capacidade crítica poderá utilizar a IA como ferramenta de apoio.
Isto não significa que as competências humanas estejam protegidas por natureza. Significa que a automatização de uma tarefa não elimina a necessidade de avaliar o contexto, as consequências e a responsabilidade associada ao resultado.
Uma análise da OCDE sobre a procura de competências concluiu que a maioria dos trabalhadores expostos à IA não precisará de conhecimentos especializados em aprendizagem automática ou processamento de linguagem natural. Precisará, contudo, de adaptar métodos e competências.
O estudo identificou maior procura por capacidades de gestão, administração, finanças e coordenação de projetos nas profissões mais expostas. A transição não exige que todos os trabalhadores se tornem programadores. Exige que compreendam a tecnologia no contexto da própria função.
O uso informal de IA cria riscos dentro das empresas
A adoção destas ferramentas pode criar uma divisão entre trabalhadores da mesma organização.
De um lado ficam os profissionais com acesso autorizado, formação e espaço para testar aplicações. Do outro permanecem os que não dispõem de ferramentas oficiais, orientação ou tempo para compreender os sistemas.
Esta diferença nem sempre reflete idade, função ou habilitações académicas. Pode resultar das decisões de cada departamento. Uma equipa com regras e formação adquire experiência, enquanto outra, sujeita a proibições sem alternativas, perde contacto com práticas que já surgem no setor.
Deixar a aprendizagem entregue à iniciativa individual cria diferenças internas. Os profissionais mais autónomos avançam por conta própria. Os mais cautelosos afastam-se por receio de errar. Outros recorrem a serviços não autorizados sem conhecer as regras aplicáveis aos dados.
O uso informal de ferramentas sem conhecimento da empresa é muitas vezes designado por Shadow AI. Esta prática pode expor informação interna e retirar à organização a capacidade de conhecer os sistemas utilizados nos seus próprios processos.
Cabe às lideranças definir políticas claras, identificar as ferramentas autorizadas, estabelecer que dados podem ser tratados e determinar as tarefas sujeitas a validação humana.
A formação também deve considerar as diferenças entre departamentos. A equipa financeira enfrenta riscos distintos dos que afetam o marketing. Os recursos humanos lidam com decisões sobre pessoas. Os departamentos jurídicos trabalham com confidencialidade, fontes e responsabilidade profissional.
O objetivo não consiste em formar especialistas informáticos em todas as áreas. Consiste em dar a cada trabalhador condições para compreender o que a ferramenta faz, onde pode falhar e em que momento deve rejeitar uma resposta.
A formação em IA também é responsabilidade das empresas
Na União Europeia, esta matéria já não pertence apenas à política de recursos humanos. O TecheNet acompanhou, em dezembro de 2023, o acordo político que antecedeu o atual Regulamento da Inteligência Artificial, que atribui responsabilidades aos fornecedores e às entidades que utilizam sistemas de IA.
O artigo 4.º do regulamento exige medidas de apoio à literacia das pessoas que operam estes sistemas em nome das organizações. Esta disposição aplica-se desde 2 de fevereiro de 2025.
Após as alterações aprovadas em julho de 2026, a obrigação manteve-se, embora já não exista a exigência de alcançar um nível individual específico de literacia. As empresas continuam obrigadas a apoiar o desenvolvimento das competências necessárias à utilização dos sistemas.
A legislação não impõe um curso único nem estabelece que todos os trabalhadores devam receber a mesma formação. As medidas devem considerar os conhecimentos das pessoas, o contexto de utilização e os riscos do sistema.
A Comissão Europeia admite que confiar apenas nas instruções da ferramenta pode ser insuficiente. Uma empresa cujos trabalhadores utilizem IA para produzir textos ou efetuar traduções deve, por exemplo, informá-los sobre a possibilidade de o sistema apresentar informação falsa.
Dar acesso a uma plataforma e esperar que cada pessoa aprenda por conta própria deixou de constituir uma resposta adequada. As empresas precisam de conhecer os sistemas usados, avaliar os riscos e manter registos das medidas de formação e orientação.
O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Económico Mundial, mostra a dimensão atribuída ao problema pelos empregadores. Cerca de 63% das empresas consultadas identificaram a falta de competências como um dos principais obstáculos à transformação organizacional.
O relatório coloca a IA e os grandes volumes de dados entre as competências com maior crescimento esperado até 2030. Estes números representam expectativas empresariais, não um resultado inevitável, mas mostram que a adoção tecnológica e a preparação dos trabalhadores já fazem parte da mesma discussão.
Till Leopold, responsável pelas áreas de Trabalho, Salários e Criação de Emprego do Fórum Económico Mundial, defendeu a atuação conjunta das entidades públicas e privadas na apresentação do relatório.
“Chegou o momento de empresas e governos trabalharem em conjunto, investirem em competências e criarem uma força de trabalho equitativa e resiliente.”
A declaração foi publicada pelo Fórum Económico Mundial e traduzida a partir do original em inglês.
Comprar uma ferramenta não transforma, por si só, uma empresa. Sem formação, regras e revisão dos processos, a tecnologia pode aumentar a velocidade de execução sem melhorar a qualidade do trabalho.
Quem pode, afinal, ficar para trás?
Os profissionais que recusem qualquer contacto com a inteligência artificial poderão perder oportunidades nos setores em que estas ferramentas já integram os processos de trabalho. Algo semelhante ocorreu com outras tecnologias que alteraram funções e critérios de recrutamento.
A resposta fica, porém, incompleta se ignorar a responsabilidade das organizações. Um trabalhador sem formação não está na mesma posição de outro que recebeu acesso, orientação e tempo para aprender.
Também não devemos confundir rapidez de adoção com competência. Quem utiliza primeiro uma ferramenta não é necessariamente quem melhor compreende os seus limites. Em setores sujeitos a regras, sigilo ou responsabilidade civil, a prudência pode ser tão relevante como a rapidez.
A diferença estará menos entre quem usa ou não usa IA e mais na forma como cada profissional avalia os resultados. O mesmo vale para as empresas. Comprar ferramentas é simples; criar condições para uma utilização responsável exige formação, regras e tempo para aprender.
A inteligência artificial já integra várias rotinas profissionais e deverá alargar a sua presença a outras funções. O problema não reside apenas na adoção. Reside na qualidade dessa integração.
Se as empresas tratarem a literacia em IA como uma responsabilidade partilhada, os trabalhadores terão melhores condições para se adaptar. Se a apresentarem como um problema individual, poderão criar diferenças internas, falhas de segurança e processos que ninguém supervisiona de forma adequada.
Nenhuma empresa pode exigir uma utilização responsável da inteligência artificial se não oferecer formação, regras claras e condições para que os trabalhadores aprendam.
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