A Amazon pode comprar até 60 mil milhões de dólares em produtos da Qualcomm no âmbito de uma parceria de longo prazo destinada ao desenvolvimento de processadores e sistemas de conectividade para centros de dados de inteligência artificial.

O acordo, anunciado pela Qualcomm a 8 de setembro, prevê o desenvolvimento conjunto de várias gerações de chips personalizados para cargas de inferência de IA, além de soluções de conectividade ótica para as redes dos centros de dados da Amazon.
Os 60 mil milhões de dólares representam um limite associado aos pagamentos que podem ser realizados durante a vigência do acordo. Segundo a documentação apresentada pela Qualcomm à Securities and Exchange Commission (SEC), esses pagamentos podem abranger chips para servidores, tecnologia, sistemas e serviços de fabrico fornecidos à Amazon.
Amazon recebe direitos sobre até 25 milhões de ações
A componente financeira do acordo vai além das encomendas de hardware. A Qualcomm concedeu a uma afiliada da Amazon um warrant que permite adquirir até 25 milhões de ações da fabricante por 161,26 dólares por título.
Se a Amazon exercer a totalidade desses direitos ao preço definido, a aquisição das ações representará cerca de 4,03 mil milhões de dólares.
Os direitos não ficam disponíveis de uma só vez. A Qualcomm explicou à SEC que as ações serão libertadas por fases, em função da celebração de acordos comerciais, da colocação de encomendas vinculativas e das compras efetivamente realizadas pela Amazon.
Do total, 3,75 milhões de ações ficaram imediatamente adquiridas devido aos compromissos iniciais de compra. O warrant expira a 3 de setembro de 2036.
A estrutura liga, desta forma, a participação potencial da Amazon na Qualcomm ao volume de negócios concretizado entre as duas empresas.
Qualcomm entra na infraestrutura de IA da AWS
A colaboração prevê várias gerações de silício personalizado destinado à infraestrutura da Amazon Web Services (AWS). As duas empresas vão trabalhar sobretudo em processadores para inferência, a fase em que um modelo de inteligência artificial já treinado processa novos dados e produz respostas.
A Qualcomm e a Amazon também estão a desenvolver sistemas de conectividade ótica com velocidades até 1,6 Tbit/s, além de tecnologias para gerações posteriores. Estas ligações destinam-se a suportar a transferência de grandes volumes de dados entre os componentes que formam os sistemas de IA.
A Qualcomm pretende recorrer às suas tecnologias SerDes e de processamento digital de sinais óticos para esta parte da infraestrutura. A fabricante reforçou estas capacidades após concluir a aquisição da Alphawave por cerca de 2,4 mil milhões de dólares, segundo a Reuters.
A própria Qualcomm também deverá aumentar a utilização da AWS. A empresa prevê recorrer à infraestrutura de IA da Amazon, que inclui o Amazon Bedrock, em tarefas de automação de design eletrónico (EDA), com o objetivo declarado de reduzir os ciclos de desenvolvimento dos chips.
Centros de dados reduzem dependência dos smartphones
O acordo reforça a tentativa da Qualcomm de diversificar um negócio historicamente dependente de processadores e modems para telemóveis.
A empresa estabeleceu como objetivo alcançar 15 mil milhões de dólares em receitas anuais provenientes de chips para centros de dados até 2029, segundo a Reuters. A entrada neste mercado coloca a Qualcomm num segmento dominado pela NVIDIA, mas onde os grandes operadores de serviços cloud também desenvolvem cada vez mais processadores personalizados para reduzir custos e adaptar o hardware às suas próprias cargas de trabalho.
Para a Amazon, a parceria acrescenta outra fonte de tecnologia à infraestrutura da AWS. A empresa já desenvolve os seus próprios processadores, entre os quais os chips Trainium, destinados a inteligência artificial, e Graviton, baseados na arquitetura Arm.
A colaboração com a Qualcomm não significa, por isso, que a Amazon deixe de desenvolver chips internamente ou de comprar processadores a outros fornecedores. O acordo amplia as opções disponíveis para construir a infraestrutura necessária ao crescimento dos serviços de IA.
A operação também ilustra uma prática que ganhou peso no setor: grandes fornecedores de infraestrutura concedem direitos económicos aos seus principais clientes enquanto estes assumem compromissos de compra. Neste caso, porém, a participação potencial da Amazon na Qualcomm depende diretamente da concretização dos marcos comerciais definidos no acordo.
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