A ameaça quântica pode comprometer no futuro as chaves usadas para controlar carteiras de criptomoedas e permitir a desencriptação de dados sensíveis recolhidos atualmente. A Europol alerta que organizações, decisores políticos e empresas do setor dos criptoativos devem começar a preparar a transição antes de existirem computadores quânticos capazes de executar estes ataques.

O alerta consta de dois relatórios publicados esta quarta-feira, 7 de outubro, pelo Centro Europeu de Cibercrime da Europol. Um analisa a exposição das criptomoedas à computação quântica. O segundo estuda o risco conhecido como Harvest Now, Decrypt Later, no qual informação encriptada é recolhida hoje para uma eventual desencriptação no futuro.
O problema não significa que os atuais sistemas de criptografia possam ser quebrados por computadores quânticos disponíveis hoje. A própria Europol reconhece que não é possível determinar quando existirão máquinas com capacidade suficiente. A questão está no tempo necessário para substituir sistemas criptográficos, atualizar protocolos e coordenar alterações em infraestruturas que podem permanecer em utilização durante muitos anos.
O risco da computação quântica para a criptografia já levou empresas e operadores a testar tecnologias destinadas a proteger comunicações futuras. Em abril, a Vodafone Portugal realizou a sua primeira videochamada com encriptação quântica através de uma rede de fibra ótica em Lisboa, num teste baseado em distribuição quântica de chaves.
Carteiras são o principal ponto de exposição das criptomoedas
O relatório Quantum Computing and Cryptocurrencies procura distinguir os riscos concretos de previsões segundo as quais a computação quântica poderá provocar inevitavelmente o colapso das criptomoedas. A Europol apresenta uma análise técnica das vulnerabilidades e das possíveis medidas de mitigação.
Segundo a agência europeia, o principal ponto de exposição está nas chaves criptográficas utilizadas para controlar carteiras e autorizar transações. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia, em determinadas condições, calcular uma chave privada a partir de uma chave pública já exposta. Um atacante poderia então utilizar essa chave para transferir fundos sem autorização do proprietário.
Esta vulnerabilidade não significa que todos os mecanismos utilizados pelas blockchains apresentem o mesmo grau de exposição. As funções criptográficas de hash, usadas em elementos importantes da integridade destas redes, são comparativamente mais resistentes a ataques quânticos.
A Europol recomenda, por isso, uma transição faseada para mecanismos resistentes à computação quântica, acompanhada por alterações na segurança das carteiras e na gestão de chaves. O processo exigirá coordenação entre programadores de blockchain, fornecedores de carteiras, utilizadores e autoridades.
Esta coordenação pode ser particularmente complexa em redes descentralizadas, onde uma alteração do sistema criptográfico pode obrigar diferentes participantes a atualizar software, carteiras e protocolos sem comprometer o funcionamento da rede.
Dados roubados hoje podem tornar-se legíveis no futuro
O segundo relatório analisa uma ameaça diferente. No modelo Harvest Now, Decrypt Later, um atacante não precisa de possuir atualmente um computador quântico capaz de quebrar a criptografia.
A estratégia consiste em intercetar ou obter informação encriptada e armazená-la para tentar decifrá-la mais tarde, quando existirem sistemas computacionais suficientemente avançados. O relatório Harvest Now, Decrypt Later foi desenvolvido pela Europol e pela Universidade Carlos III de Madrid no âmbito do grupo consultivo de investigação e desenvolvimento do Centro Europeu de Cibercrime.
O risco é maior para informação que precisa de permanecer confidencial durante períodos prolongados. Comunicações governamentais, propriedade intelectual, registos médicos e ficheiros policiais estão entre os exemplos apresentados pela agência europeia.
A possibilidade de futura desencriptação depende, contudo, dos protocolos utilizados, da respetiva configuração e das práticas de gestão das chaves. A Europol salienta ainda que não existem atualmente provas claras de exploração sistemática desta técnica em grande escala. O armazenamento e processamento de grandes volumes de dados também exigiriam recursos consideráveis.
União Europeia quer iniciar transição até ao final de 2026
A preocupação da Europol surge num momento em que a União Europeia já estabeleceu um calendário para a adoção de criptografia pós-quântica.
Os Estados-membros aprovaram em junho de 2025 um roteiro coordenado para preparar a substituição progressiva dos sistemas vulneráveis. Segundo a Comissão Europeia, todos os países da UE devem começar a transição para criptografia pós-quântica até ao final de 2026.
Os sistemas considerados de elevado risco deverão fazer essa transição o mais rapidamente possível e, no limite definido pelo roteiro, até ao final de 2030. A Comissão considera que os dados atualmente armazenados ou transmitidos podem já estar expostos quando precisam de manter a confidencialidade durante muitos anos.
A criptografia pós-quântica procura resolver esse problema através de algoritmos concebidos para resistir tanto a computadores convencionais como a futuros computadores quânticos. Não depende da existência de redes quânticas e pode, em muitos casos, ser integrada progressivamente na infraestrutura informática atual.
A encriptação pós-quântica já começou a chegar a serviços destinados ao consumidor. A NordVPN, por exemplo, estendeu em 2025 esta proteção às suas aplicações para Windows, macOS, iOS, Android e outras plataformas.
Europol recomenda inventário dos sistemas criptográficos
Para as organizações, uma das primeiras medidas propostas pela Europol passa por identificar onde e como a criptografia é utilizada. Esse inventário permite perceber quais os sistemas que precisam de proteção durante mais tempo e quais devem receber prioridade na migração.
A agência recomenda também a eliminação de protocolos de segurança desatualizados, a redução da retenção desnecessária de dados, modelos mais flexíveis de gestão de chaves e testes com soluções pós-quânticas.
A incerteza sobre a chegada de computadores quânticos capazes de comprometer a criptografia atual não elimina, portanto, o problema. Para a Europol, o fator decisivo é o tempo necessário para preparar sistemas, protocolos e infraestruturas antes de essa capacidade existir.
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