A notícia caiu como uma bomba no setor tecnológico e, se estavas a planear trocar de telemóvel nos próximos meses, talvez seja melhor começares a preparar a carteira. Os dados mais recentes da TrendForce indicam que os preços da memória RAM móvel (DRAM) estão prestes a disparar de forma histórica, com uma subida prevista que roça os 100% já no segundo trimestre de 2026. Esta escalada não surge do nada, mas a sua dimensão é suficiente para fazer tremer até os fabricantes mais resilientes. O teu próximo smartphone vai custar uma pequena fortuna e a culpa, como em quase tudo o que toca ao hardware atual, está num lugar inesperado.
Para perceberes a gravidade da situação, temos de olhar para os números frios. No início deste ano, o custo contratual da memória LPDDR5 rondava os 10 dólares por gigabyte. Era um valor aceitável, mas o cenário mudou drasticamente. Depois de um salto de cerca de 60% no primeiro trimestre, as projeções para este período apontam para um aumento entre 93% e 98%.
Na prática, isto significa que os fabricantes estão a pagar quase o dobro pelo mesmo componente. Alguns contratos a longo prazo já estão a ser assinados a 21 dólares por gigabyte. Faz as contas: num telemóvel moderno com 12GB ou 16GB de RAM, só o custo deste componente pode representar uma fatia pesada do preço final. No espaço de pouco mais de um ano, o preço da memória triplicou, e o pior é que os analistas da SemiAnalysis não preveem qualquer alívio significativo até ao final de 2027.

A inteligência artificial roubou o teu lugar na fábrica
Podes estar a perguntar-te porque é que, de repente, parece que não há memória para ninguém. A resposta curta tem duas letras: IA. As gigantes que dominam este mercado — Samsung, SK Hynix e Micron — estão a desviar quase toda a sua capacidade de produção para a HBM (High Bandwidth Memory). Este é o tipo de memória ultra-rápida que alimenta os servidores e aceleradores de inteligência artificial nos grandes centros de dados.
Como deves imaginar, a margem de lucro nestes componentes para servidores é muito superior à da memória destinada a smartphones. Por isso, as linhas de montagem que antes fabricavam os chips para o teu equipamento estão agora ocupadas a servir gigantes como a NVIDIA. O resultado é uma escassez artificial de DRAM móvel, onde as marcas de smartphones são obrigadas a lutar pelas “sobras” e a pagar preços de leilão para garantir que não ficam com as fábricas paradas.
O regresso indesejado dos telemóveis lentos
O impacto desta crise vai sentir-se de forma diferente dependendo do segmento, mas ninguém está a salvo. Eis como o mercado se deve adaptar:
- Segmento premium: Marcas como a Apple ou a Samsung (nas gamas S) dificilmente vão reduzir a RAM, optando antes por transferir o custo diretamente para o consumidor final.
- Gama média: É aqui que vais ver o maior malabarismo, com marcas a tentarem manter o preço de venda, mas sacrificando outros componentes, como o processador ou a qualidade do ecrã.
- Equipamentos de entrada: Este é o cenário mais negro. A TrendForce sugere que muitos smartphones baratos podem regressar aos 4GB de RAM em pleno 2026 para evitar que o preço de venda se torne proibitivo.
É um retrocesso tecnológico forçado pela economia. Num mundo onde as aplicações são cada vez mais pesadas, voltar aos 4GB de memória é quase uma sentença de morte para a experiência de utilização a curto prazo.
Uma espera longa pela normalização
Se a tua estratégia era aguentar o teu telemóvel atual até que os preços baixassem, tenho más notícias: vais ter de ter muita paciência. O ciclo de investimento das fábricas de semicondutores é lento e a prioridade continuará a ser, por muito tempo, o lucrativo setor da inteligência artificial.
Não se trata apenas de uma flutuação passageira de mercado, mas de uma mudança estrutural na forma como os recursos de produção são alocados globalmente. Até que novas fábricas entrem em funcionamento ou que a febre da IA abrande ligeiramente, o hardware que carregamos no bolso será visto pelos fabricantes como um parente pobre na lista de prioridades de fornecimento.
Se vires um bom negócio hoje, talvez seja a última oportunidade de comprar tecnologia a preços minimamente razoáveis antes desta nova vaga de aumentos chegar em força às prateleiras portuguesas.
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