O primeiro smartphone dobrável da Apple chegou ao mercado rodeado de expectativas, mas os problemas de durabilidade que começaram a surgir poucos dias após o lançamento estão a levantar dúvidas sobre o seu potencial comercial. As previsões de vendas do iPhone Duo foram revistas em baixa, numa altura em que continuam a multiplicar-se os relatos de equipamentos com ecrãs danificados.
Segundo os dados destacados pelo PhoneArena, as estimativas de comercialização para 2026 passaram de seis para cinco milhões de unidades. As projeções para a quota da Apple no mercado dos smartphones dobráveis em 2027 também sofreram uma revisão significativa, passando de 41% para menos de 30%.
Embora estas alterações não possam ser atribuídas exclusivamente aos defeitos identificados, surgem num momento particularmente delicado para a fabricante norte-americana, que apostou vários anos de desenvolvimento e um preço premium na sua estreia neste segmento.
Previsões de vendas caem para cinco milhões de unidades
A entrada da Apple no mercado dos dobráveis era encarada como um possível ponto de viragem para toda a indústria. A dimensão da sua base de clientes, a força da marca e a integração com o ecossistema iOS alimentavam previsões de uma rápida conquista de quota de mercado.
A Counterpoint Research tinha inicialmente apontado para cerca de seis milhões de unidades expedidas durante 2026. Entretanto, a estimativa foi reduzida para cinco milhões, representando uma revisão em baixa de aproximadamente 16,7%.
A alteração torna-se ainda mais expressiva quando analisamos as perspetivas para 2027. As projeções anteriormente divulgadas apontavam para uma quota de mercado de 41%, um resultado que colocaria a Apple numa posição particularmente forte perante fabricantes com vários anos de experiência neste segmento.
As estimativas mais recentes indicam agora uma participação inferior a 30%, colocando em dúvida a possibilidade de a empresa ultrapassar rapidamente a Samsung na liderança do mercado.
É importante distinguir estas projeções dos resultados comerciais efetivos. Estamos perante estimativas que podem ser influenciadas pela disponibilidade do produto, capacidade de produção, condições económicas e evolução da procura.
A ligação direta entre a revisão das previsões e os problemas de durabilidade também não está demonstrada. Ainda assim, os incidentes tornaram-se um novo fator de incerteza numa categoria onde a fiabilidade dos equipamentos continua a ser uma preocupação importante.

Problemas no ecrã interior colocam durabilidade em causa
O chamado Crackgate começou poucos dias depois do início da comercialização do iPhone Duo, a 23 de outubro de 2026.
Vários proprietários começaram a partilhar fotografias e testemunhos de fissuras, linhas luminosas e falhas no painel interior. Em alguns casos, os danos terão surgido durante a abertura ou o fecho do smartphone, mesmo após períodos relativamente curtos de utilização.
A situação levou a Apple a confirmar problemas no ecrã interior de um número reduzido de equipamentos. A fabricante assegurou que os clientes afetados poderão solicitar a substituição das unidades defeituosas.
Contudo, continua sem revelar o número total de dispositivos envolvidos, os lotes potencialmente afetados ou a origem exata das falhas.
A iFixit realizou uma análise técnica da construção do equipamento e identificou possíveis pontos de pressão junto à dobradiça. Uma das hipóteses envolve um elemento de suporte que poderá não recuar suficientemente durante o fecho, exercendo pressão localizada sobre o painel flexível.
Esta explicação permanece uma hipótese técnica e não uma causa oficialmente confirmada.
A complexidade da construção dos smartphones dobráveis torna particularmente importante a coordenação entre os mecanismos de articulação e o ecrã. Pequenas alterações na distribuição das forças mecânicas podem comprometer componentes que estão sujeitos a milhares de ciclos de abertura e fecho.
Um smartphone de 1.999 dólares que enfrenta problemas de confiança
O posicionamento comercial do iPhone Duo contribui para aumentar a dimensão da polémica.
Nos Estados Unidos, o equipamento apresenta um preço inicial de 1.999 dólares, colocando-se numa das categorias mais exclusivas do mercado móvel.
Por este valor, os consumidores esperam não apenas um smartphone tecnologicamente avançado, mas também uma qualidade de construção capaz de justificar o investimento.
A questão torna-se especialmente relevante quando consideramos os custos de reparação. Segundo a iFixit, a substituição do ecrã interior fora da cobertura de garantia está avaliada em 999 dólares no mercado norte-americano.
Apesar de o problema reconhecido pela Apple estar abrangido pelo processo de substituição anunciado, este valor demonstra o custo potencial de uma reparação num componente particularmente complexo.
Existe também uma diferença importante entre os compradores habituais de equipamentos dobráveis e os consumidores que agora entram nesta categoria através do ecossistema da Apple.
Os primeiros poderão estar mais familiarizados com as limitações técnicas dos ecrãs flexíveis. Para os restantes, a expectativa poderá aproximar-se da resistência e simplicidade de utilização oferecidas pelos smartphones convencionais.
Esta diferença de expectativas pode influenciar a perceção pública do equipamento, mesmo que os problemas acabem por afetar apenas uma pequena percentagem das unidades comercializadas.
Samsung aproveita dificuldades da rival
Os problemas do iPhone Duo também se transformaram numa oportunidade para a concorrência.
A Samsung lançou uma campanha publicitária que faz referência às falhas relatadas nos ecrãs do primeiro dobrável da Apple, procurando promover o Galaxy Z Fold 8 como uma alternativa mais madura.
A iniciativa utiliza imagens com linhas luminosas semelhantes às observadas nos equipamentos danificados, acompanhadas de mensagens que destacam a experiência acumulada pela fabricante sul-coreana.
As provocações da Samsung começaram no Canadá e chegaram também a outros mercados, incluindo Austrália e Malásia.
A estratégia demonstra a importância da reputação num segmento onde os consumidores continuam a associar os ecrãs dobráveis a preocupações de durabilidade.
A Samsung começou a comercializar smartphones deste tipo em 2019, tendo enfrentado dificuldades significativas com o primeiro Galaxy Fold. Esses problemas levaram ao adiamento do lançamento e a alterações na construção do equipamento.
Desde então, a empresa lançou várias gerações de dobráveis, aperfeiçoando os mecanismos de articulação e os materiais utilizados nos ecrãs.
A experiência acumulada não significa que os seus produtos estejam imunes a problemas, mas oferece uma vantagem importante na comunicação com potenciais compradores.
Apple ainda pode recuperar, mas terá de resolver as dúvidas
Apesar da revisão das previsões, cinco milhões de unidades continuam a representar um volume comercial significativo para um produto de primeira geração, especialmente tendo em conta o seu preço e a chegada ao mercado apenas no último trimestre do ano.
Além disso, as dificuldades de disponibilidade registadas nas primeiras semanas demonstram que existe interesse pelo equipamento. O desafio passa agora por perceber se essa procura continuará depois de os problemas de durabilidade terem recebido maior atenção pública.
A resposta da Apple poderá ser determinante.
A substituição dos dispositivos afetados representa um primeiro passo, mas a fabricante ainda precisa de esclarecer a origem das falhas e demonstrar que os novos equipamentos não estão sujeitos aos mesmos riscos.
Também será importante acompanhar os resultados comerciais efetivos, uma vez que as projeções atualmente divulgadas podem voltar a sofrer alterações.
O iPhone Duo continua a representar uma das apostas mais importantes da Apple nos últimos anos. No entanto, a sua estreia demonstra que a entrada tardia num segmento tecnológico não garante automaticamente uma experiência livre de dificuldades.
A empresa poderá ainda conquistar uma posição dominante no mercado dos dobráveis, mas terá primeiro de convencer os consumidores de que a sua proposta oferece a durabilidade esperada de um smartphone que custa praticamente dois mil dólares.
Outros artigos interessantes:




