Um novo ciberataque a supermercados, dirigido aos sistemas de refrigeração, afetou mais de uma centena de estabelecimentos europeus, com incidentes registados em países como Bélgica, Suécia, Irlanda e Países Baixos. Portugal também foi atingido. O Grupo Mosqueteiros confirmou problemas em sete lojas Intermarché, três das quais registaram perdas de produtos alimentares.
Os incidentes foram detetados na segunda-feira, 2 de novembro, e provocaram subidas anormais de temperatura em frigoríficos e arcas congeladoras. Em alguns estabelecimentos suecos, os equipamentos terão atingido os 50 °C, o que obrigou à retirada de alimentos. As autoridades investigam as ocorrências, mas ainda não foi demonstrado que todos os ataques façam parte de uma operação coordenada.

Segundo a Reuters, os problemas atingiram cadeias como Carrefour, Ahold Delhaize, Colruyt, ICA, Coop e Musgrave, além de pelo menos um estabelecimento IKEA. Os relatos abrangem também a Estónia, a Finlândia e o Luxemburgo.
Sete lojas Intermarché afetadas em Portugal
Em Portugal, o Grupo Mosqueteiros confirmou incidentes nos sistemas de refrigeração de sete supermercados Intermarché. De acordo com a informação divulgada pela Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), três estabelecimentos registaram perdas de produtos alimentares, que serão destruídos por razões de segurança.
A empresa indicou que a origem do problema poderá estar num prestador de serviços externo responsável pela gestão dos equipamentos de refrigeração. Esta possibilidade aponta para um eventual comprometimento da infraestrutura tecnológica utilizada para controlar os sistemas, em vez de uma intrusão direta nas redes informáticas dos supermercados.
O Grupo Mosqueteiros assegurou que a cadeia de abastecimento não foi afetada e que estão garantidas as condições de higiene e segurança alimentar.
A Polícia Judiciária está atenta à possibilidade de uma ação maliciosa, enquanto o Centro Nacional de Cibersegurança acompanha a situação. A investigação procura determinar a origem dos incidentes e esclarecer se existe alguma ligação com os ataques registados noutros países.
A confirmação dos problemas em Portugal alarga o alcance geográfico desta vaga de incidentes, inicialmente identificada em sete países europeus.
Ciberataques a supermercados provocam perdas alimentares em vários países
Na Bélgica, um dos países mais afetados, o Carrefour confirmou problemas em 15 das suas 700 lojas. A Ahold Delhaize identificou anomalias em dezenas de estabelecimentos na Bélgica e no Luxemburgo, enquanto a Colruyt comunicou incidentes em cinco lojas Spar.
Na Irlanda, o grupo Musgrave confirmou que 13 supermercados SuperValu foram afetados. Os estabelecimentos retiraram produtos refrigerados e congelados da venda por precaução, mas os centros de distribuição e as entregas não sofreram perturbações.
Na Suécia, a cadeia ICA identificou problemas em várias lojas. Num estabelecimento de Estocolmo, os congeladores terão atingido os 50 °C durante a madrugada, antes de os responsáveis detetarem a anomalia.
Nos Países Baixos, foram identificados incidentes em pelo menos 17 estabelecimentos comerciais, sobretudo talhos e pequenas lojas. A Estónia e a Finlândia também registaram problemas em equipamentos de refrigeração.
De acordo com a Associated Press, os incidentes obrigaram várias empresas a retirar alimentos da venda, embora a dimensão total dos prejuízos ainda não esteja apurada.
Como os atacantes conseguem alterar as temperaturas
Os equipamentos de refrigeração comercial utilizam sistemas eletrónicos que permitem monitorizar temperaturas, configurar ciclos de descongelação e receber alertas à distância.
Estas funcionalidades facilitam a manutenção de instalações distribuídas por várias lojas, mas também criam pontos de exposição quando os sistemas estão ligados à Internet sem mecanismos de proteção adequados.
Na Bélgica, a empresa Sabcobel, responsável pela manutenção de instalações de refrigeração, identificou equipamentos colocados indevidamente em modo de descongelação. Esta alteração interrompe o funcionamento normal do sistema e pode provocar uma subida rápida da temperatura dos alimentos armazenados.
A fabricante dinamarquesa Danfoss, cujos equipamentos estão presentes em algumas das instalações afetadas, identificou problemas associados a software desatualizado e configurações de segurança insuficientes.
Segundo a agência EFE, a empresa alertou clientes nos Países Baixos para a utilização de palavras-passe predefinidas e ligações à Internet sem proteção adequada. A fabricante recomendou restringir o acesso remoto aos equipamentos.
O caso demonstra que um ataque informático não precisa de comprometer diretamente sistemas de pagamento ou bases de dados para provocar prejuízos materiais. O acesso não autorizado aos controladores de refrigeração pode ser suficiente para interromper a conservação dos alimentos.
Nova vaga surge três semanas depois dos ataques em França
Os incidentes de novembro surgem apenas três semanas depois de um ciberataque a supermercados em França, ocorrido a 12 de outubro, que afetou os sistemas de refrigeração de pelo menos 350 estabelecimentos.
Na altura, os atacantes também terão conseguido alterar remotamente as temperaturas dos equipamentos, o que provocou a deterioração de alimentos. Entre as cadeias afetadas encontravam-se Carrefour, Intermarché, Monoprix e Coopérative U.
A investigação francesa identificou equipamentos de diferentes fabricantes entre os sistemas comprometidos. O incidente colocou em evidência os riscos associados a controladores industriais antigos ou com interfaces de administração acessíveis através da Internet.
A repetição de um método semelhante em vários países levanta dúvidas sobre a existência de vulnerabilidades comuns. Contudo, a semelhança entre os incidentes não constitui prova de que tenham sido executados pelos mesmos atacantes.
A Sabcobel revelou que tinha iniciado medidas de proteção após os ataques franceses, mas aproximadamente 10% das instalações abrangidas ainda não tinham sido corrigidas quando ocorreu a nova vaga.
Autoridades investigam a origem dos ataques
Até ao momento, nenhum grupo reivindicou publicamente a responsabilidade pelas operações e não foram identificados pedidos de resgate associados aos incidentes.
A ausência de exigências financeiras levou especialistas a considerar a hipótese de sabotagem. No entanto, não existem elementos suficientes para confirmar essa motivação.
Na Bélgica, o Ministério Público Federal abriu uma investigação. Em Portugal, a Polícia Judiciária procura esclarecer a natureza das ocorrências nas lojas Intermarché.
Os ataques também suscitaram preocupações sobre a segurança das cadeias de abastecimento alimentar. A manipulação de equipamentos de refrigeração pode provocar perdas económicas, desperdício alimentar e interrupções temporárias na atividade comercial.
Apesar da extensão geográfica dos incidentes, não existem indicações de que a segurança alimentar da União Europeia esteja comprometida no seu conjunto.
A investigação terá agora de esclarecer se os atacantes exploraram uma vulnerabilidade comum, comprometeram prestadores de serviços externos ou utilizaram diferentes métodos para aceder aos sistemas de refrigeração.
Outros artigos interessantes:




