O malware Aokigahara está preparado para roubar credenciais e dados de sessão de ferramentas de inteligência artificial, incluindo o ChatGPT, Claude e vários assistentes de programação. Uma análise divulgada pela Check Point Research, a 23 de outubro, revela que o programa malicioso procura também acessos a repositórios de código e serviços cloud, o que aumenta os riscos para os utilizadores e para as empresas.

A ameaça não é inteiramente nova. A Symantec já tinha identificado, a 15 de outubro, versões do Aokigahara capazes de recolher credenciais associadas a ferramentas de IA. A investigação agora divulgada pela Check Point aprofunda o funcionamento dos mecanismos de recolha e chama a atenção para as consequências de um único computador comprometido concentrar acessos a diferentes serviços.
Malware Aokigahara procura sessões de IA e credenciais
O Aokigahara, também conhecido como Aoki, pertence à categoria dos infostealers, programas maliciosos concebidos para recolher informação sensível nos dispositivos infetados.
Segundo a Check Point Research, o malware dispõe de um módulo específico, identificado como aisessions, que procura ficheiros associados ao ChatGPT Desktop, Claude, Codex, Cursor, Windsurf, GitHub Copilot, Gemini CLI e JetBrains AI Assistant.
Estes ficheiros podem conter dados de autenticação, identificadores de sessão, tokens de acesso e configurações das aplicações. O conteúdo varia consoante o serviço, pelo que nem todos os ficheiros recolhidos permitem necessariamente o acesso a uma conta.
A investigação publicada pela Symantec confirma que as versões mais recentes do malware Aokigahara passaram a procurar este tipo de informação. As variantes anteriores concentravam-se sobretudo em dados armazenados nos navegadores, gestores de palavras-passe e carteiras de criptomoedas.
A recolha de credenciais de IA representa, assim, uma evolução das capacidades do malware, que procura agora informação associada a serviços cada vez mais utilizados no trabalho diário.
Depois de recolher os dados, o Aokigahara organiza-os por categorias e prepara ficheiros ZIP cifrados para os enviar a um servidor controlado pelos atacantes. As sessões de IA constituem uma categoria própria, separada das restantes informações obtidas no computador.
Um computador comprometido pode expor vários serviços
O risco não se limita às contas do ChatGPT ou Claude. A análise da Check Point identifica também mecanismos que procuram credenciais Git, ficheiros SSH e configurações associadas à Amazon Web Services (AWS), Microsoft Azure e Google Cloud.
Num computador utilizado para programação, estes elementos podem coexistir com sessões autenticadas de assistentes de IA e acessos a repositórios de código.
Se um atacante conseguir obter credenciais válidas, poderá utilizá-las para aceder aos serviços correspondentes, dentro dos limites das permissões associadas a cada conta. Dependendo da aplicação, isto poderá permitir consultar históricos de conversas, aceder a ficheiros ou utilizar recursos pagos sem autorização.
O problema torna-se particularmente relevante nas empresas, onde os colaboradores podem utilizar ferramentas de IA para analisar documentos internos, desenvolver software ou trabalhar com informação confidencial.
Esta exposição não significa, contudo, que o malware tenha acesso automático a todos esses conteúdos. A possibilidade de consultar conversas ou ficheiros depende dos dados efetivamente roubados, da validade das sessões e dos mecanismos de segurança de cada serviço.
A Check Point esclarece ainda que os módulos responsáveis pela recolha de credenciais de IA e de serviços de desenvolvimento funcionam separadamente. A investigação não demonstra que os atacantes combinem deliberadamente esses acessos numa única sequência de ataque.
O roubo de credenciais pode ter consequências financeiras
Além da exposição de informação, as credenciais roubadas podem permitir a utilização indevida de serviços de inteligência artificial pagos.
Uma chave de API válida, por exemplo, pode autorizar pedidos a modelos de IA e gerar custos para o titular da conta. Este tipo de abuso está associado ao fenómeno conhecido como LLM-jacking.
O problema já foi abordado pelo TecheNet no artigo sobre o aumento do LLM-jacking identificado pela Google em 2026, que descreve a utilização e comercialização de acessos comprometidos a serviços de IA.
No caso específico do malware Aokigahara, importa distinguir a capacidade técnica das consequências efetivamente observadas.
A Check Point Research confirma que o malware foi concebido para recolher credenciais e dados de sessão, mas não identificou provas de que os seus operadores tenham reutilizado ou vendido acessos a contas de IA. Também não confirmou tentativas de extorsão relacionadas com estas credenciais.
Como proteger as contas de inteligência artificial
A análise da Check Point reforça a necessidade de tratar as sessões de IA como outras credenciais sensíveis. A proteção não deve concentrar-se apenas na informação que os utilizadores introduzem nos assistentes, mas também nos mecanismos que permitem aceder às respetivas contas.
Para reduzir os riscos, a empresa recomenda várias medidas:
- Proteger os dispositivos: manter os sistemas atualizados e utilizar mecanismos de segurança capazes de detetar malware de roubo de informação.
- Controlar as credenciais: tratar tokens de autenticação, chaves de API e sessões de IA como dados sensíveis, com permissões limitadas ao necessário.
- Definir regras para a utilização de IA: estabelecer quais os documentos, códigos e informações empresariais que podem ser partilhados com serviços externos.
- Proteger os ambientes de desenvolvimento: reforçar a segurança das chaves SSH, credenciais Git e acessos a serviços cloud.
- Rever os acessos após um incidente: caso um computador seja comprometido, revogar as sessões e credenciais potencialmente expostas, incluindo as das ferramentas de IA.
A autenticação multifator continua a ser uma medida importante para proteger contas, mas pode não impedir o abuso de um token de sessão válido que tenha sido roubado de um dispositivo infetado. Por esse motivo, a revogação de sessões deve fazer parte da resposta a incidentes.
O malware Aokigahara demonstra que o crescimento da utilização de assistentes de IA trouxe uma nova categoria de credenciais para o conjunto de informações procuradas pelos programas maliciosos. Embora não existam provas públicas de utilização indevida das contas de IA especificamente roubadas por este malware, as suas capacidades de recolha estão documentadas por duas investigações de segurança.
Outros artigos interessantes:




