Tim Cook, o CEO da Apple, quebrou o silêncio sobre os recentes e trágicos acontecimentos em Minneapolis, onde duas pessoas foram mortas a tiro por agentes federais de imigração (ICE). Num memorando interno enviado aos funcionários e numa conversa direta com o Presidente Donald Trump, Cook apelou à calma e à dignidade humana, navegando a linha ténue entre a liderança corporativa e a diplomacia política num momento de elevada tensão social nos Estados Unidos.
A intervenção do líder da tecnológica surge na sequência da morte de Alex Pretti, um enfermeiro de cuidados intensivos de 37 anos, e de Renée Good, uma poeta da mesma idade, ambos abatidos em encontros separados com agentes do ICE este mês. O clima de revolta pública exigiu uma resposta, e Cook escolheu as palavras com cuidado.

“Estou de coração partido”: o apelo interno
No memorando obtido pela Bloomberg, Cook descreve-se como estando “de coração partido” pelos eventos. A sua mensagem central é um apelo à desescalada.
“Acredito que a América é mais forte quando vivemos à altura dos nossos ideais mais elevados, quando tratamos todos com dignidade e respeito, independentemente de quem são ou de onde vêm”, escreveu Cook.
Esta linguagem reflete a posição histórica da Apple sobre imigração e diversidade. A empresa, como muitas em Silicon Valley, depende fortemente de talento global e tem defendido consistentemente políticas de imigração justas (como o programa DACA). Ao sublinhar que “abraçar a nossa humanidade partilhada” é algo que a Apple sempre defendeu, Cook está a tentar tranquilizar uma força de trabalho interna que está, sem dúvida, abalada e receosa com o clima atual.
A conversa com Trump e a polémica da Casa Branca
O aspeto mais estratégico da resposta de Cook foi a sua revelação de que teve uma “boa conversa” com o Presidente Donald Trump esta semana. Embora não tenha detalhado o conteúdo específico, Cook afirmou ter partilhado as suas opiniões e agradeceu a “abertura” do Presidente para discutir temas importantes.
Esta postura pragmática de manter canais abertos com a administração, independentemente da política, é uma marca da gestão de Cook (recorde-se o presente de uma barra de ouro de 24 quilates que ofereceu a Trump no ano passado). No entanto, esta proximidade tem custos de reputação.
Cook foi alvo de críticas severas por ter comparecido a uma exibição privada do documentário “Melania” na Casa Branca, no sábado passado, apenas horas após a morte de Alex Pretti. Para muitos críticos, o timing da visita VIP contrastou de forma insensível com a tragédia que se desenrolava nas ruas de Minneapolis, sugerindo uma desconexão entre a elite corporativa e a realidade social.
O equilíbrio impossível
A situação coloca Tim Cook numa posição delicada. Por um lado, tem de defender os valores liberais e inclusivos da Apple e proteger os seus funcionários imigrantes. Por outro, precisa de manter uma relação funcional com uma administração agressiva para proteger os interesses comerciais da Apple (como evitar tarifas).
O seu apelo à “desescalada” é tanto um pedido social como uma necessidade empresarial: a instabilidade e o medo são maus para o negócio e para o moral da equipa. Resta saber se as suas palavras terão algum impacto real nas políticas de imigração ou se servirão apenas como um penso rápido numa ferida social profunda.
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