A Gates Foundation vai investir pelo menos mil milhões de dólares nos próximos dois anos em inteligência artificial, com o objetivo de ampliar o acesso à tecnologia em áreas como saúde, educação e agricultura. O compromisso inclui também financiamento para dados e idiomas pouco representados nos atuais modelos de IA.

O investimento procura responder a uma preocupação assumida pela fundação: os sistemas de inteligência artificial mais avançados continuam concentrados nos países, idiomas e organizações com maior capacidade financeira e tecnológica. No relatório Goalkeepers de 2026, a organização defende que esta diferença poderá aumentar as desigualdades existentes se as ferramentas não forem adaptadas às necessidades das populações menos representadas.
Saúde e educação recebem a maior parte do investimento
Segundo a Associated Press, cerca de 400 milhões de dólares serão destinados à educação e outros 400 milhões à saúde.
Na educação, a fundação aponta para ferramentas capazes de ajudar professores a identificar conceitos que os alunos ainda não compreenderam e a adaptar os planos de aula.
Na saúde, as aplicações previstas incluem sistemas que apoiem profissionais na análise de informação clínica ou que permitam identificar sintomas eventualmente ignorados durante uma primeira avaliação.
A Gates Foundation já tinha iniciado projetos deste tipo. Em janeiro, anunciou com a OpenAI o Horizon 1000, destinado a levar ferramentas de IA a 1.000 clínicas de cuidados de saúde primários e respetivas comunidades na África subsaariana.
Em maio, a fundação anunciou ainda uma parceria de 200 milhões de dólares com a Anthropic para desenvolver recursos e aplicações de IA em saúde, educação e agricultura.
O novo compromisso financeiro agrega e amplia esta estratégia, em vez de representar o início do investimento da fundação nesta área.
Agricultura recebe cerca de 100 milhões de dólares
Outros 100 milhões de dólares deverão financiar projetos agrícolas, incluindo aplicações que forneçam aos agricultores informação em tempo real sobre condições meteorológicas, pragas, fertilizantes e culturas.
A fundação considera particularmente relevante que estas ferramentas utilizem informação local e funcionem nos idiomas das comunidades onde são aplicadas. Um modelo treinado sobretudo com dados de outros países pode oferecer recomendações menos adequadas às condições agrícolas, económicas ou sociais de uma determinada região.
Esta orientação já estava presente na estratégia AI for Equity da Gates Foundation, que concentra parte do trabalho em países de rendimentos baixos e médios, sobretudo na África subsaariana e no sul da Ásia.
Cerca de 100 milhões para dados e idiomas locais
Os restantes cerca de 100 milhões de dólares deverão apoiar conjuntos de dados, idiomas e outras infraestruturas necessárias ao funcionamento dos sistemas de inteligência artificial.
A Gates Foundation pretende aumentar a representação de idiomas atualmente pouco presentes nos dados usados para desenvolver modelos de IA. Google.org e o AI for Good Lab da Microsoft participam já numa iniciativa destinada a financiar projetos nesta área.
O problema não se limita à tradução. Sistemas treinados com poucos dados de uma determinada língua ou região podem apresentar menor precisão e dificuldade em compreender referências culturais, médicas ou agrícolas específicas desse contexto.
Bill Gates alerta para risco de aumento das desigualdades
O investimento surge numa altura em que Bill Gates adotou uma posição mais cautelosa sobre os efeitos da inteligência artificial.
Em entrevista à Reuters, o cofundador da Microsoft afirmou que os governos ainda não estão suficientemente preparados para as alterações sociais provocadas pela tecnologia.
Gates aponta riscos relacionados com emprego, ciberataques e utilização excessiva de sistemas de IA, mas mantém que a tecnologia pode contribuir para reduzir diferenças entre países ricos e pobres caso o acesso seja distribuído de forma mais equilibrada.
A dimensão do novo compromisso deve, contudo, ser colocada em contexto. Mark Suzman, CEO da Gates Foundation, reconheceu à Associated Press que os valores representam apenas uma pequena fração dos milhares de milhões de dólares que as grandes empresas tecnológicas investem atualmente no desenvolvimento de inteligência artificial.
Os resultados dependerão, por isso, não apenas do financiamento, mas também da capacidade de adaptar os sistemas às condições locais e de demonstrar que estas aplicações funcionam de forma segura e eficaz em setores como saúde, educação e agricultura.
Para mais informações sobre a Gates Foundation, visite o site oficial.
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