A Tesla pressionou autoridades europeias para reduzir a extensão e o rigor das avaliações ao FSD Supervised, segundo uma investigação da Reuters baseada em centenas de páginas de correspondência entre a fabricante e reguladores de sete países. A documentação mostra objeções da empresa aos métodos de avaliação, custos e prazos do processo de aprovação.

A investigação da Reuters levanta também dúvidas sobre os estudos apresentados pela Tesla para sustentar que o sistema reduz acidentes e mortes. Sete especialistas em segurança rodoviária consultados pela agência consideraram que a metodologia utilizada não permite demonstrar essas conclusões. A Tesla não respondeu às perguntas detalhadas enviadas pela Reuters.
RDW alterou avaliação após objeções da Tesla
A correspondência analisada pela Reuters mostra que funcionários do regulador neerlandês RDW flexibilizaram alguns elementos da avaliação depois de repetidas objeções da Tesla. Especialistas em regulação de veículos autónomos consultados pela agência consideraram que estas trocas levantam dúvidas sobre a influência exercida pela fabricante durante o processo.
O RDW rejeita que a sua independência tenha sido comprometida. O organismo sustenta que o contacto com fabricantes faz parte do processo normal de homologação e afirma que a segurança permaneceu como critério central da avaliação.
A pressão da Tesla sobre o calendário já tinha sido visível publicamente. Em março, a empresa indicou nas redes sociais uma data em que esperava obter a aprovação. O RDW respondeu que a análise ainda decorria e que a decisão dependeria da avaliação dos resultados dos testes e dos dados disponíveis.
Em abril de 2026, o regulador concedeu uma homologação provisória ao Tesla FSD Supervised nos Países Baixos. O sistema é classificado como assistência à condução e não torna o automóvel autónomo. O condutor continua responsável e tem de permanecer atento para assumir o controlo quando necessário, uma distinção que já abordámos no TecheNet ao analisar a evolução do FSD nos Tesla com Hardware 3.
A decisão neerlandesa iniciou o processo que poderá permitir a utilização do sistema em toda a União Europeia. O procedimento exige que o RDW apresente o pedido à Comissão Europeia e que os Estados-membros votem no comité responsável.
Estudos da Tesla levantam dúvidas metodológicas
Uma das principais questões identificadas pela Reuters está na forma como a Tesla tentou demonstrar a segurança do FSD Supervised na Europa.
Os estudos recorreram a condutores profissionais e a indicadores indiretos de risco, como travagens bruscas e utilização da buzina, em vez de uma comparação estatisticamente robusta entre acidentes. Os sete especialistas consultados pela Reuters consideraram que estas métricas não permitem, por si só, demonstrar uma redução de acidentes ou mortes.
A Tesla apresenta conclusões diferentes. No seu relatório de segurança do FSD Supervised, a fabricante afirma que o sistema apresenta uma taxa de colisões inferior à média dos condutores norte-americanos. A comparação é baseada em dados produzidos pela própria empresa e refere sobretudo o mercado dos Estados Unidos.
A Reuters concluiu que parte da investigação norte-americana usada pela Tesla recorre a critérios diferentes para comparar acidentes. A fabricante contou, por exemplo, colisões com FSD em que houve acionamento dos airbags e comparou essa taxa com dados nacionais que incluem acidentes menos graves, como ocorrências em que foi necessário rebocar um veículo. Os especialistas ouvidos pela agência consideraram que esta diferença metodológica impede uma comparação direta.
RDW realizou mais de 3.000 horas de testes próprios
As críticas aos estudos da Tesla não significam que a aprovação neerlandesa tenha dependido apenas dos dados fornecidos pela fabricante.
O RDW afirma que verificou a forma como a Tesla recolheu e analisou os dados e submeteu a análise estatística a uma avaliação independente. O organismo realizou também mais de 3.000 horas de testes próprios, tanto em pistas como em estradas públicas, sob diferentes condições de trânsito, tipos de estrada e meteorologia.
Os testes abrangeram mais de 1.000 percursos e utilizaram também dados relativos a 1,8 milhões de quilómetros percorridos na Europa com FSD Supervised. Segundo o regulador, este processo permitiu concluir que o sistema cumpria os requisitos aplicáveis à homologação concedida nos Países Baixos.
A divergência está, portanto, sobretudo no alcance das conclusões. Os especialistas consultados pela Reuters questionam se os estudos da Tesla demonstram que o FSD reduz acidentes e mortes. O RDW afirma que a sua decisão se baseou numa avaliação regulamentar mais ampla, que combinou dados da fabricante com testes próprios.
FSD Supervised já está autorizado em oito países da UE
Depois da aprovação neerlandesa, outros Estados-membros aceitaram provisoriamente o sistema nos respetivos territórios.
Segundo a Tesla, o FSD Supervised está atualmente disponível em oito países da União Europeia: Países Baixos, Lituânia, Estónia, Dinamarca, Bélgica, Eslovénia, República Checa e Croácia. A empresa inclui estes mercados na lista de países onde obteve autorização regulatória.
Uma aprovação para toda a UE continua, contudo, sem estar concluída. A Alemanha manifestou apoio a uma decisão rápida, enquanto França e Suécia mantêm reservas. Segundo a Reuters, a votação europeia foi adiada pelo menos até dezembro.
Aprovação europeia pode criar precedente regulatório
O FSD Supervised distingue-se de outros sistemas atualmente autorizados porque pode assumir várias tarefas de condução em diferentes tipos de estrada sem exigir que o utilizador mantenha permanentemente as mãos no volante.
Existem outros sistemas com condução sem mãos em situações específicas. O RDW refere o Ford BlueCruise e soluções da BMW autorizadas para utilização em autoestradas, mas considera que o FSD Supervised assume um conjunto mais amplo de tarefas.
Uma eventual autorização para toda a União Europeia poderá, por isso, ter implicações para outros fabricantes. O processo neerlandês mostra como os reguladores estão a adaptar procedimentos existentes a sistemas de assistência cada vez mais dependentes de software e inteligência artificial.
A investigação da Reuters introduz, porém, uma questão adicional. Além de avaliar se a tecnologia cumpre os requisitos técnicos, o processo passa também a colocar sob escrutínio a relação entre fabricantes e reguladores quando as empresas contestam os métodos, custos e extensão dos próprios testes de segurança.
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