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Peixes de laboratório expostos a remédio para ansiedade prosperam

Luiz Guilherme Trevisan Gomes por Luiz Guilherme Trevisan Gomes
11/08/2014 - Atualizado a 20/08/2014
Em Ciência
Perca inglesa (perca fluviatilis). Imagem: jelger herder; buiten-beeld; getty images
perca inglesa (perca fluviatilis). Imagem: jelger herder; buiten-beeld; getty images




Os resultados de um novo experimento sugerem que os métodos comuns de avaliação do impacto ambiental do despejo de medicamentos nos corpos d’água precisam ser, eles próprios, reavaliados.

Em dissertação, publicada no periódico Environmental Research Letters, pesquisadores relatam que um grupo de percas (Perca fluviatilis) expostas ao oxazepam, um dos medicamentos mais utilizados no controle da ansiedade, tem maiores chances de sobrevivência, em comparação aos peixes não expostos à substância.

De acordo com Jonatan Klaminder, cientista da Universidade de Umeå (Suécia), e seus colegas, seu estudo revela que outros experimentos podem não captar determinados efeitos dos medicamentos sobre os ecossistemas aquáticos, uma vez que seu foco se concentra apenas nos possíveis danos aos animais e plantas. Isso se deve ao fato de os exames de impacto toxicológico normalmente empregarem peixes saudáveis, criados em laboratório para apresentar taxas de sobrevivência de quase 100%, no grupo controle, a fim de se observar a redução na sobrevivência advinda da exposição à substância que se deseja estudar. Torna-se difícil, portanto, a constatação de melhoras na taxa de sobrevivência se o grupo controle pouco tem a evoluir nesse quesito.

O experimento liderado por Klaminder tomou o rumo contrário: peixes de dois anos de idade, retirados de uma lago sueco que acabara de descongelar, e ovas (óvulos de peixe que contêm embriões em desenvolvimento) foram expostos dois níveis de concentração de oxazepam: um muito elevado — 1.000 microgramas (μg) por litro — e outro, baixo, de 1 μg l−1, dose considerada normal para um ambiente aquático urbano, pois concentrações de até 1.9 μg l−1 já haviam sido encontradas na água que sai das estações de tratamento de esgoto.

Verificou-se, no grupo controle, uma taxa de mortalidade considerada normal para os padrões naturais, embora relativamente alta em comparação com a observada nos peixes expostos à droga. Ainda se constatou que a menor taxa de mortalidade entre os grupos esteve entre os animais expostos à dosagem mais elevada de oxazepam.

Para Kathryn Arnold, ecóloga da Universidade de York, no Reino Unido, o efeito observado no experimento não representa necessariamente uma boa coisa: “[s]e um farmacêutico tem efeito benéfico sobre uma espécie, é provável que tenha efeitos negativos sobre as espécies predadas ou competidoras“, diz, completando que tais efeitos sobre a cadeia alimentar frequentemente não são levados em conta em análises.

Klaminder e sua equipe observam que os peixes expostos ao oxazepam ficam mais ativos e menos sociáveis, o que parece se opor ao efeito de uma droga da qual se espera que provoque relaxamento; os pesquisadores acreditam que isto seja causado pela redução do estresse, que torna os peixes mais audaciosos e corajosos, fazendo com que passem menos tempo em grupo e mais tempo buscando alimento, podendo decorrer disto o aumento na taxa de sobrevivência.

Entretanto, essas mudanças comportamentais podem prejudicar os peixes em ambientes naturais, nos quais um peixe que se torna mais corajoso e se desgarra do grupo provavelmente acabará “no estômago de um predador”, adverte Klaminder.

Ainda é incerto se o efeito se aplica a outros medicamentos, espécies e ambientes, o que deve ser estudado com mais profundidade para que se conheça a real necessidade de alteração da forma como os experimentos atuais de impacto ambiental das drogas são concebidos.

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Tags: águaambientepeixe
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Luiz Guilherme Trevisan Gomes

Luiz Guilherme Trevisan Gomes

é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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