A Apple enfrenta uma subida do custo da memória numa altura em que John Ternus se prepara para apresentar os primeiros resultados trimestrais desde que substituiu Tim Cook na liderança da empresa. O novo diretor executivo deverá esclarecer como a Apple pretende proteger as margens de lucro e aproveitar os recentes lançamentos de produtos durante o período de maior atividade comercial do ano.
A pressão resulta, em parte, da procura crescente de memória para centros de dados dedicados à inteligência artificial. Os fabricantes de semicondutores têm direcionado capacidade de produção para este mercado, o que condiciona a oferta de componentes destinados a telemóveis e computadores. Para a Apple, o problema surge num momento em que procura reforçar as vendas com o iPhone Duo dobrável, novos computadores com ecrã tátil e um dispositivo doméstico inteligente.

Analistas antecipam receitas superiores a 113 mil milhões de dólares
Segundo a Reuters, os analistas consultados pela LSEG antecipam receitas de 113,39 mil milhões de dólares no quarto trimestre fiscal da Apple, correspondente ao período entre julho e setembro de 2026. O valor representa um crescimento próximo de 11% face ao mesmo período do ano anterior.
As previsões apontam, contudo, para um aumento mais moderado do lucro líquido, que deverá atingir 29,04 mil milhões de dólares, cerca de 6% acima do registado um ano antes.
A diferença entre o crescimento das receitas e dos lucros sugere uma evolução menos favorável da rentabilidade. O encarecimento dos componentes é um dos fatores que poderá limitar as margens, embora o impacto efetivo só possa ser avaliado depois da divulgação dos resultados.
O iPhone continua a ser o principal motor de receitas da Apple. As estimativas apontam para vendas de 56,54 mil milhões de dólares, um aumento de aproximadamente 15% face ao período homólogo.
A divisão de serviços, que reúne negócios como a App Store, o iCloud e as subscrições digitais, deverá alcançar receitas de 31,56 mil milhões de dólares. O crescimento previsto ronda os 10%, o ritmo mais lento em mais de três anos.
Custo da memória coloca pressão sobre os preços
O aumento do custo da memória não constitui uma surpresa para a Apple. Tim Cook já tinha alertado para o problema antes de abandonar a liderança executiva, numa altura em que a procura de componentes para infraestruturas de IA começava a afetar outros segmentos da indústria tecnológica.
A pressão sobre os preços já se fez sentir noutros produtos comercializados pela empresa. Em março, o TecheNet noticiou que os preços de algumas unidades de armazenamento externo vendidas pela Apple tinham aumentado até 200%, num contexto de escassez de componentes associada à procura dos centros de dados de IA.
A concorrência pela capacidade de produção coloca os fabricantes de eletrónica de consumo perante um problema de custos. A memória RAM é essencial ao funcionamento de telemóveis e computadores, pelo que aumentos persistentes podem reduzir as margens de lucro ou obrigar as empresas a rever os preços de venda.
A Apple já aplicou aumentos de preços a determinados produtos, mas continua por esclarecer até que ponto esta estratégia será suficiente para compensar o encarecimento dos componentes.
O impacto poderá ser particularmente relevante nos equipamentos com maiores capacidades de memória. No entanto, não existe confirmação de novos aumentos generalizados para os consumidores portugueses.
iPhone Duo será decisivo para o trimestre festivo
A apresentação dos resultados também permitirá conhecer as expectativas da Apple para os últimos meses de 2026, período que tradicionalmente concentra uma parte importante das vendas anuais.
Entre os lançamentos recentes destaca-se o iPhone Duo, o primeiro telemóvel dobrável da empresa, que começou a ser comercializado a 23 de outubro. Como chegou ao mercado depois do encerramento do quarto trimestre fiscal, as suas vendas não estarão refletidas nos resultados apresentados hoje.
O dispositivo, cujo preço começa nos 1.999 dólares nos Estados Unidos, registou uma procura inicial elevada. Contudo, surgiram relatos de problemas no ecrã interior, nomeadamente fissuras e linhas junto à zona de dobragem, que levaram a Apple a substituir algumas unidades.
A capacidade da empresa para responder à procura e resolver eventuais problemas de qualidade será um dos fatores a acompanhar durante o trimestre festivo.
O Bank of America estima que os compradores do iPhone Duo enfrentem tempos médios de espera de 79 dias, com algumas entregas previstas apenas para janeiro.
Além do dobrável, a Apple começou a comercializar novos computadores portáteis com ecrã tátil e um dispositivo doméstico inteligente. Estes produtos poderão contribuir para as receitas do trimestre festivo, embora o seu impacto financeiro ainda não esteja demonstrado.
Estratégia de IA também estará sob escrutínio
A inteligência artificial será outro dos temas centrais da primeira apresentação de resultados conduzida por John Ternus.
Ao contrário de empresas como a Microsoft, Google, Meta e Amazon, a Apple não assumiu compromissos comparáveis de investimento na expansão de centros de dados destinados ao desenvolvimento e execução de modelos de IA.
Esta diferença tem favorecido a empresa num período em que os investidores demonstram preocupação com os custos das infraestruturas de inteligência artificial e com o prazo necessário para recuperar os investimentos.
As ações da Apple acumularam uma valorização próxima de 27% desde o início de 2026, um desempenho superior ao de várias das principais empresas tecnológicas norte-americanas.
A menor exposição ao investimento em centros de dados não elimina, contudo, a dependência da Apple em relação à cadeia de fornecimento de semicondutores. A expansão da IA pode beneficiar a empresa através de novas funcionalidades e serviços, mas também contribui para aumentar os custos dos componentes utilizados nos seus equipamentos.
Os investidores esperam igualmente esclarecimentos sobre a evolução da Siri, a integração de novas capacidades de inteligência artificial nos dispositivos e as oportunidades comerciais associadas à distribuição de agentes de IA de terceiros através da App Store.
A estratégia de inteligência artificial também apresenta limitações de disponibilidade. Como o TecheNet noticiou em setembro, a nova Siri AI continua indisponível no iPhone na União Europeia, apesar de outras funcionalidades da Apple Intelligence já integrarem o iOS 27.
A questão será perceber se a Apple consegue transformar estas funcionalidades em novas fontes de receita, sem comprometer a abordagem à privacidade que tem defendido para o seu ecossistema.
A apresentação dos resultados está prevista para esta segunda-feira, 2 de novembro. Além dos números relativos ao trimestre terminado em setembro, as previsões para o período festivo deverão permitir avaliar de que forma a Apple espera conciliar o aumento dos custos de produção com a procura pelos seus novos equipamentos.
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