Uma campanha de influência com IA utilizou o ChatGPT para criar publicações destinadas a promover uma entidade apresentada como centro de estudos sediado em Israel. A OpenAI bloqueou as contas associadas após concluir que tinham, com elevada probabilidade, origem na Rússia.

A operação promovia o International Burke Institute através de conteúdos publicados no X, LinkedIn, Facebook, Substack e Telegram. O instituto apresentava especialistas, artigos académicos e um índice de soberania, mas uma análise encontrou textos copiados, atribuições falsas e conteúdos favoráveis à Rússia.
Pontos principais
- A OpenAI bloqueou um conjunto de contas do ChatGPT com origem provável na Rússia.
- Os operadores utilizaram a plataforma para criar publicações e comentários destinados às redes sociais.
- A análise encontrou 34 artigos copiados numa amostra de 36 conteúdos associados ao instituto.
- A maioria das publicações teve pouca interação, embora alguns canais do Telegram reunissem entre 10 mil e 20 mil seguidores.
OpenAI identifica contas com origem provável na Rússia
A OpenAI anunciou o bloqueio das contas a 25 de agosto, através de um relatório sobre a operação de influência. A empresa afirma que os utilizadores acediam ao ChatGPT a partir da Rússia com recurso a redes privadas virtuais.
O acesso aos modelos da OpenAI não está disponível na Rússia. As redes privadas virtuais permitiam ocultar a localização real das contas e contornar essa restrição.
Os operadores escreviam instruções em russo, mas solicitavam conteúdos sobretudo em inglês. Alguns pedidos determinavam a remoção de características linguísticas que pudessem revelar a origem russa dos autores.
A OpenAI identificou os textos produzidos pelo ChatGPT em publicações no X, LinkedIn, Facebook, Substack e Telegram. Algumas contas utilizavam o nome e a identidade visual do International Burke Institute. Outras apresentavam-se como utilizadores comuns e partilhavam sobretudo ligações para os conteúdos dessa entidade.
O ChatGPT também foi utilizado para criar respostas a publicações de utilizadores reais no Substack. Essas mensagens recomendavam, por norma, que os leitores seguissem o canal do instituto.
A investigação encontrou ainda publicações em alemão dirigidas contra a Ucrânia, a União Europeia e o Governo alemão. Outro operador solicitou imagens para cerca de 12 canais do Telegram centrados na Alemanha, Estados Unidos, França, Polónia e Turquia.
A atribuição exige cautela. A OpenAI considera muito provável que as contas tivessem origem na Rússia, mas não apresentou provas de uma ligação direta ao Governo russo.
Instituto utilizava conteúdos académicos copiados
A maior parte da atividade promovia o International Burke Institute, também identificado pela sigla IBI. O respetivo site foi registado em fevereiro de 2025 e apresentava a organização como uma comunidade internacional de especialistas com sede em Israel.
A página associava ao instituto nomes reconhecidos do meio académico e político. Entre eles estavam Francis Fukuyama, Noam Chomsky e o antigo secretário de Estado norte americano Mike Pompeo.
A investigação da OpenAI analisou uma amostra de 36 artigos publicados entre setembro de 2025 e maio de 2026. A empresa concluiu que 34 tinham sido copiados de outras fontes da Internet.
Alguns textos tinham vários anos. Outros apareciam associados a autores que não os tinham escrito. Um artigo sobre o corredor económico entre a China e o Paquistão, por exemplo, reproduzia um trabalho publicado pela Cambridge University Press, mas atribuía o conteúdo a outra investigadora.
Noutro caso, o site associou um artigo sobre políticas migratórias a uma professora australiana de química alimentar. O texto original tinha sido publicado pelo Migration Policy Institute e pertencia a outros autores.
A investigação independente do Le Monde encontrou também referências a alegadas parcerias com organizações internacionais. A UNICEF confirmou ao jornal que o International Burke Institute não era um parceiro aprovado e que não existia registo de trabalho conjunto.
Estes elementos criavam uma aparência de autoridade académica. Os conteúdos copiados conferiam ao site uma base documental que podia parecer legítima a um leitor que não verificasse os autores e as publicações originais.
A OpenAI não encontrou indícios de que os artigos alojados no site tivessem sido produzidos pelos seus modelos. A função do ChatGPT concentrou-se sobretudo na criação de publicações promocionais para as redes sociais.
Inteligência artificial apoiou a distribuição da campanha
O International Burke Institute publicava também um índice destinado a avaliar a soberania dos países. A metodologia colocava a Rússia numa posição favorável e apresentava avaliações negativas sobre a França, Alemanha, União Europeia e Estados Unidos.
Os textos defendiam que os países da Europa Ocidental tinham perdido autonomia política e económica. Também criticavam o apoio europeu à Ucrânia e promoviam melhores relações com a Rússia.
A utilização de um índice próprio dava às mensagens uma aparência quantitativa. Os operadores podiam apresentar opiniões políticas como resultados de uma metodologia institucional, mesmo sem demonstrarem a validade dos critérios utilizados.
O ChatGPT serviu para ampliar a distribuição desses conteúdos. Em vez de criar toda a infraestrutura, o modelo produziu mensagens adaptadas a diferentes plataformas e públicos.
A distinção é relevante para compreender o papel da inteligência artificial nas operações de influência. A tecnologia pode reduzir o tempo e o custo necessários para produzir conteúdos em vários idiomas, mas continua a depender de sites, contas, canais e mecanismos de distribuição.
Neste caso, a utilização do ChatGPT também contribuiu para a deteção da operação. A análise das contas e dos pedidos permitiu à OpenAI relacionar publicações dispersas com o International Burke Institute e com os canais que promoviam os seus conteúdos.
O alcance limitado da campanha de influência com IA não elimina o risco
A OpenAI considera que o impacto imediato da campanha foi limitado. As publicações nas redes sociais receberam, em geral, poucas visualizações e interações. As contas oficiais do instituto também tinham poucos subscritores.
Os canais do Telegram apresentavam uma audiência superior. De acordo com a empresa, vários tinham entre 10 mil e 20 mil seguidores. Estes valores não confirmam, por si só, que os seguidores fossem autênticos ou que interagissem com os conteúdos.
Na escala de impacto desenvolvida pela Brookings Institution, a OpenAI colocou a operação no limite inferior da categoria três. Esta classificação corresponde a uma atividade presente em várias plataformas, com alguns indícios de contacto com audiências reais.
A relevância do caso reside sobretudo na infraestrutura. A operação reuniu uma entidade com aparência institucional, alegados especialistas, conteúdos académicos, um índice próprio e canais de distribuição em vários países.
O Le Monde identificou ainda pessoas com presença real em Israel associadas ao instituto ou à promoção do índice. A OpenAI declarou que não conseguiu determinar a relação entre essas pessoas, o IBI e os operadores localizados na Rússia.
Também não existe, até ao momento, uma ligação comprovada entre o instituto e a Social Design Agency, uma entidade associada a outras campanhas de desinformação russas. Documentos anteriormente divulgados descreviam, contudo, planos para criar um centro de estudos em Israel com capacidade para distribuir conteúdos através dos meios de comunicação ocidentais.
O caso mostra que a inteligência artificial pode funcionar como uma componente de operações mais amplas destinadas a fabricar credibilidade. O alcance inicial reduzido não elimina o risco de uma infraestrutura deste tipo crescer, adquirir reconhecimento e servir de fonte aparente para conteúdos políticos.
Perguntas frequentes – FAQ
O que fez a OpenAI?
A OpenAI bloqueou um conjunto de contas do ChatGPT que, de acordo com a investigação da empresa, tinham origem provável na Rússia. As contas produziam conteúdos para promover o International Burke Institute e vários canais nas redes sociais.
O ChatGPT criou os artigos do instituto?
A OpenAI afirma que não encontrou indícios de que os artigos publicados no site tivessem sido gerados pelos seus modelos. O ChatGPT foi utilizado sobretudo para criar publicações, comentários e materiais promocionais.
O International Burke Institute era uma entidade real?
O instituto tinha um site, um endereço declarado em Israel e algumas pessoas associadas às suas atividades. No entanto, apresentou artigos copiados, autores incorretos e parcerias que não foram confirmadas. A relação entre a entidade, os operadores na Rússia e as pessoas identificadas em Israel permanece por esclarecer.
A operação estava ligada ao Governo russo?
Não existe uma ligação direta comprovada. A OpenAI atribuiu às contas uma origem provável na Rússia, mas não responsabilizou formalmente o Governo russo pela operação.
Qual foi o alcance da campanha?
A maioria das publicações teve pouca interação. Alguns canais do Telegram apresentavam entre 10 mil e 20 mil seguidores, mas estes números não permitem avaliar a autenticidade ou o envolvimento da audiência.
Porque é que esta operação é relevante?
A campanha combinou conteúdos gerados por inteligência artificial com uma estrutura que imitava uma instituição académica. Este modelo pode dar credibilidade aparente a narrativas políticas e facilitar a sua distribuição por diferentes plataformas.
Outros artigos interessantes:



