A separação da Tesla na China tornou-se tema de disputa pública entre o Wall Street Journal e Elon Musk, depois de o jornal norte-americano ter noticiado, a 30 de julho de 2026, que executivos da empresa receberam instruções para preparar essa medida. Segundo a reportagem, a operação visaria facilitar uma eventual fusão entre a Tesla e a SpaceX, a empresa aeroespacial também liderada por Musk, conforme avançado pelo Business Times.

O que reportou o Wall Street Journal
O CnEVPost, citando o Wall Street Journal, refere que conselheiros da Tesla discutiram opções que incluem uma cisão em sociedade autónoma, uma venda ou o encerramento do negócio chinês, sem calendário definido para a execução do plano. Segundo esta fonte, as preparações internas visavam um horizonte de 2026 ou 2027, motivadas pela dependência da Tesla de células de baterias de fosfato de ferro e lítio fabricadas na China e pelo risco de um conflito sobre Taiwan afectar o fornecimento de semicondutores.
Os executivos discutiram também a criação de uma entidade de vendas separada para gerir as exportações a partir da fábrica de Xangai, com sistemas informáticos distintos que impediriam funcionários baseados na China de aceder a outras unidades da empresa.
A publicação acrescenta que Musk instruiu, em anos anteriores, os executivos da Tesla para organizarem a empresa com uma separação estrutural clara entre as operações dos Estados Unidos e da China. O objectivo terá sido garantir que, em caso de conflito geopolítico entre os dois países, a metade norte-americana da Tesla permanecesse operacional, segundo o mesmo relato do CnEVPost.
A negação de Elon Musk
Elon Musk respondeu através da rede social X, que também detém, e classificou a informação como “notícia absurdamente falsa”. Numa mensagem publicada a 31 de julho, o empresário escreveu: “Isto nunca sequer chegou a ser discutido. Notícia absurdamente falsa. As pessoas devem assumir que uma notícia é falsa até prova em contrário”, conforme reproduzido pelo CBT News.
Antes desta declaração mais extensa, Musk tinha já reagido de forma sucinta a uma publicação sobre a reportagem, escrevendo apenas “isto é fake news”. Um representante da Tesla China classificou também a informação como “falsa”, em declarações prestadas ao National Business Daily, ao The Paper e a outros meios de comunicação chineses, segundo o CarNewsChina.
A vice-presidente da Tesla na China, Grace Tao, reagiu de forma indirecta na rede social Weibo, ao citar o relatório de riscos globais do Fórum Económico Mundial, que classifica a desinformação entre os principais riscos globais na edição de 2026, segundo o CnEVPost.
O peso da Gigafactory de Xangai
A Gigafactory de Xangai constitui a maior unidade fabril da Tesla a nível mundial, com capacidade de produção anual de aproximadamente um milhão de veículos, segundo o CnEVPost. A fábrica entregou 851 mil veículos em 2025, o equivalente a 52% do total de entregas globais da Tesla nesse ano, de acordo com dados oficiais citados pelo Governo Municipal de Xangai.
A unidade funciona também como plataforma de exportação para a Europa e a região Ásia-Pacífico. No primeiro semestre de 2026, as exportações a partir da fábrica de Xangai totalizaram 228.994 unidades, um aumento de 126,58% em relação ao ano anterior.
A Tesla mantém mais de 400 fornecedores locais de primeiro nível registados na China, dos quais mais de 60 integram também a cadeia de fornecimento global da empresa. Mais de 95% dos componentes utilizados no Model 3 e no Model Y fabricados na China provêm de fornecedores locais, segundo dados da própria Tesla citados pelo Shop4Tesla.
Obstáculos a uma fusão com a SpaceX
Separar as operações da Tesla na China seria um passo necessário antes de qualquer fusão, dado o papel da SpaceX como importante contratante de defesa dos Estados Unidos e a sua participação no projecto da NASA de regresso de humanos à Lua, segundo o Business Times. As vendas ao governo dos Estados Unidos representaram 20,9% do negócio da SpaceX em 2025, de acordo com o CnEVPost.
Durante a apresentação de resultados do segundo trimestre de 2026, Musk reconheceu que a sobreposição entre as duas empresas tem vindo a aumentar, mas afirmou que uma fusão “tem de ser feita com o processo apropriado” e que o tema não era adequado para discussão numa chamada de resultados da Tesla, segundo o Business Times. A presidente e directora de operações da SpaceX, Gwynne Shotwell, tinha afirmado à CNBC em Junho de 2026 que a combinação das duas empresas poderia “tornar a vida de Elon um pouco mais fácil”, conforme citado pelo CnEVPost.
Implicações para o sector automóvel
A disputa entre a reportagem do Wall Street Journal e a negação de Musk expõe a tensão entre a dependência da Tesla do mercado chinês e os riscos geopolíticos associados à liderança comum das duas empresas de Musk. A Gigafactory de Xangai representou mais de metade das entregas globais de veículos da Tesla em 2025, segundo o Governo Municipal de Xangai.
Uma eventual separação poderia enfrentar obstáculos regulatórios significativos, incluindo a necessidade de aprovação de várias autoridades chinesas e negociações sobre licenças de fabrico, acordos de terrenos, relações com fornecedores, compromissos laborais e regulação de dados, segundo o Business Times. Não existe, até ao momento, confirmação independente de que a Tesla tenha aprovado um plano formal de separação, venda ou encerramento do seu negócio chinês.
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