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OpenAI bloqueia campanha de influência com IA de origem russa

Alfredo Beleza por Alfredo Beleza
26/08/2026
Em Segurança, Inteligência Artificial

Uma campanha de influência com IA utilizou o ChatGPT para criar publicações destinadas a promover uma entidade apresentada como centro de estudos sediado em Israel. A OpenAI bloqueou as contas associadas após concluir que tinham, com elevada probabilidade, origem na Rússia.

Openai bloqueia campanha de influência com ia de origem russa
Imagem conceitual gerada por IA (Gemini)

A operação promovia o International Burke Institute através de conteúdos publicados no X, LinkedIn, Facebook, Substack e Telegram. O instituto apresentava especialistas, artigos académicos e um índice de soberania, mas uma análise encontrou textos copiados, atribuições falsas e conteúdos favoráveis à Rússia.

Pontos principais

  1. A OpenAI bloqueou um conjunto de contas do ChatGPT com origem provável na Rússia.
  2. Os operadores utilizaram a plataforma para criar publicações e comentários destinados às redes sociais.
  3. A análise encontrou 34 artigos copiados numa amostra de 36 conteúdos associados ao instituto.
  4. A maioria das publicações teve pouca interação, embora alguns canais do Telegram reunissem entre 10 mil e 20 mil seguidores.

OpenAI identifica contas com origem provável na Rússia

A OpenAI anunciou o bloqueio das contas a 25 de agosto, através de um relatório sobre a operação de influência. A empresa afirma que os utilizadores acediam ao ChatGPT a partir da Rússia com recurso a redes privadas virtuais.

O acesso aos modelos da OpenAI não está disponível na Rússia. As redes privadas virtuais permitiam ocultar a localização real das contas e contornar essa restrição.

Os operadores escreviam instruções em russo, mas solicitavam conteúdos sobretudo em inglês. Alguns pedidos determinavam a remoção de características linguísticas que pudessem revelar a origem russa dos autores.

A OpenAI identificou os textos produzidos pelo ChatGPT em publicações no X, LinkedIn, Facebook, Substack e Telegram. Algumas contas utilizavam o nome e a identidade visual do International Burke Institute. Outras apresentavam-se como utilizadores comuns e partilhavam sobretudo ligações para os conteúdos dessa entidade.

O ChatGPT também foi utilizado para criar respostas a publicações de utilizadores reais no Substack. Essas mensagens recomendavam, por norma, que os leitores seguissem o canal do instituto.

A investigação encontrou ainda publicações em alemão dirigidas contra a Ucrânia, a União Europeia e o Governo alemão. Outro operador solicitou imagens para cerca de 12 canais do Telegram centrados na Alemanha, Estados Unidos, França, Polónia e Turquia.

A atribuição exige cautela. A OpenAI considera muito provável que as contas tivessem origem na Rússia, mas não apresentou provas de uma ligação direta ao Governo russo.

Instituto utilizava conteúdos académicos copiados

A maior parte da atividade promovia o International Burke Institute, também identificado pela sigla IBI. O respetivo site foi registado em fevereiro de 2025 e apresentava a organização como uma comunidade internacional de especialistas com sede em Israel.

A página associava ao instituto nomes reconhecidos do meio académico e político. Entre eles estavam Francis Fukuyama, Noam Chomsky e o antigo secretário de Estado norte americano Mike Pompeo.

A investigação da OpenAI analisou uma amostra de 36 artigos publicados entre setembro de 2025 e maio de 2026. A empresa concluiu que 34 tinham sido copiados de outras fontes da Internet.

Alguns textos tinham vários anos. Outros apareciam associados a autores que não os tinham escrito. Um artigo sobre o corredor económico entre a China e o Paquistão, por exemplo, reproduzia um trabalho publicado pela Cambridge University Press, mas atribuía o conteúdo a outra investigadora.

Noutro caso, o site associou um artigo sobre políticas migratórias a uma professora australiana de química alimentar. O texto original tinha sido publicado pelo Migration Policy Institute e pertencia a outros autores.

A investigação independente do Le Monde encontrou também referências a alegadas parcerias com organizações internacionais. A UNICEF confirmou ao jornal que o International Burke Institute não era um parceiro aprovado e que não existia registo de trabalho conjunto.

Estes elementos criavam uma aparência de autoridade académica. Os conteúdos copiados conferiam ao site uma base documental que podia parecer legítima a um leitor que não verificasse os autores e as publicações originais.

A OpenAI não encontrou indícios de que os artigos alojados no site tivessem sido produzidos pelos seus modelos. A função do ChatGPT concentrou-se sobretudo na criação de publicações promocionais para as redes sociais.

Inteligência artificial apoiou a distribuição da campanha

O International Burke Institute publicava também um índice destinado a avaliar a soberania dos países. A metodologia colocava a Rússia numa posição favorável e apresentava avaliações negativas sobre a França, Alemanha, União Europeia e Estados Unidos.

Os textos defendiam que os países da Europa Ocidental tinham perdido autonomia política e económica. Também criticavam o apoio europeu à Ucrânia e promoviam melhores relações com a Rússia.

A utilização de um índice próprio dava às mensagens uma aparência quantitativa. Os operadores podiam apresentar opiniões políticas como resultados de uma metodologia institucional, mesmo sem demonstrarem a validade dos critérios utilizados.

O ChatGPT serviu para ampliar a distribuição desses conteúdos. Em vez de criar toda a infraestrutura, o modelo produziu mensagens adaptadas a diferentes plataformas e públicos.

A distinção é relevante para compreender o papel da inteligência artificial nas operações de influência. A tecnologia pode reduzir o tempo e o custo necessários para produzir conteúdos em vários idiomas, mas continua a depender de sites, contas, canais e mecanismos de distribuição.

Neste caso, a utilização do ChatGPT também contribuiu para a deteção da operação. A análise das contas e dos pedidos permitiu à OpenAI relacionar publicações dispersas com o International Burke Institute e com os canais que promoviam os seus conteúdos.

O alcance limitado da campanha de influência com IA não elimina o risco

A OpenAI considera que o impacto imediato da campanha foi limitado. As publicações nas redes sociais receberam, em geral, poucas visualizações e interações. As contas oficiais do instituto também tinham poucos subscritores.

Os canais do Telegram apresentavam uma audiência superior. De acordo com a empresa, vários tinham entre 10 mil e 20 mil seguidores. Estes valores não confirmam, por si só, que os seguidores fossem autênticos ou que interagissem com os conteúdos.

Na escala de impacto desenvolvida pela Brookings Institution, a OpenAI colocou a operação no limite inferior da categoria três. Esta classificação corresponde a uma atividade presente em várias plataformas, com alguns indícios de contacto com audiências reais.

A relevância do caso reside sobretudo na infraestrutura. A operação reuniu uma entidade com aparência institucional, alegados especialistas, conteúdos académicos, um índice próprio e canais de distribuição em vários países.

O Le Monde identificou ainda pessoas com presença real em Israel associadas ao instituto ou à promoção do índice. A OpenAI declarou que não conseguiu determinar a relação entre essas pessoas, o IBI e os operadores localizados na Rússia.

Também não existe, até ao momento, uma ligação comprovada entre o instituto e a Social Design Agency, uma entidade associada a outras campanhas de desinformação russas. Documentos anteriormente divulgados descreviam, contudo, planos para criar um centro de estudos em Israel com capacidade para distribuir conteúdos através dos meios de comunicação ocidentais.

O caso mostra que a inteligência artificial pode funcionar como uma componente de operações mais amplas destinadas a fabricar credibilidade. O alcance inicial reduzido não elimina o risco de uma infraestrutura deste tipo crescer, adquirir reconhecimento e servir de fonte aparente para conteúdos políticos.

Perguntas frequentes – FAQ

O que fez a OpenAI?

A OpenAI bloqueou um conjunto de contas do ChatGPT que, de acordo com a investigação da empresa, tinham origem provável na Rússia. As contas produziam conteúdos para promover o International Burke Institute e vários canais nas redes sociais.

O ChatGPT criou os artigos do instituto?

A OpenAI afirma que não encontrou indícios de que os artigos publicados no site tivessem sido gerados pelos seus modelos. O ChatGPT foi utilizado sobretudo para criar publicações, comentários e materiais promocionais.

O International Burke Institute era uma entidade real?

O instituto tinha um site, um endereço declarado em Israel e algumas pessoas associadas às suas atividades. No entanto, apresentou artigos copiados, autores incorretos e parcerias que não foram confirmadas. A relação entre a entidade, os operadores na Rússia e as pessoas identificadas em Israel permanece por esclarecer.

A operação estava ligada ao Governo russo?

Não existe uma ligação direta comprovada. A OpenAI atribuiu às contas uma origem provável na Rússia, mas não responsabilizou formalmente o Governo russo pela operação.

Qual foi o alcance da campanha?

A maioria das publicações teve pouca interação. Alguns canais do Telegram apresentavam entre 10 mil e 20 mil seguidores, mas estes números não permitem avaliar a autenticidade ou o envolvimento da audiência.

Porque é que esta operação é relevante?

A campanha combinou conteúdos gerados por inteligência artificial com uma estrutura que imitava uma instituição académica. Este modelo pode dar credibilidade aparente a narrativas políticas e facilitar a sua distribuição por diferentes plataformas.

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Tags: campanha de influência com IAChatGPTOpenAIorigem russa
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Alfredo Beleza

Alfredo Beleza

É o fundador e director editorial do TecheNet. Com carreira internacional como CEO e director comercial e de marketing em empresas em Portugal, na Suíça e no Brasil, desenvolveu uma perspectiva aprofundada sobre a intersecção entre tecnologia, negócios e mercados globais. Com formação em Gestão, Administração e Marketing pela Webster University, na Suíça, criou o TecheNet como um projecto editorial comprometido com o rigor e a imparcialidade da informação tecnológica em língua portuguesa.

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