Esguiche para matar: desvendado o mistério do jato d’água do peixe-arqueiro

"– Bond, Peixe Bond": Peixe-arqueiros disparam jato d'água em insetos para devorá-los em seguida. Imagem: A&J Visage; Alamy
“– Bond, Peixe Bond”: Peixe-arqueiros disparam jato d’água em insetos para devorá-los em seguida. Imagem: A&J Visage; Alamy

O peixe-arqueiro é o atirador de elite do reino animal. As espécies do gênero Toxotes, que habitam mangues do sul e sudeste asiáticos, podem disparar jatos d’água em alvos localizados a alguns metros de distância. Os alvos — insetos e pequenos animais — atingidos pelos jatos se desequilibram e caem na água, onde são rapidamente devorados pelo peixe-arqueiro.

A “pistola d’água” do peixe-arqueiro é feita através da compressão das coberturas, ou tampas, das guelras e da passagem da água por um canal formado pela língua e o céu da boca do peixe. A precisão dos jatos d’água é admirada há tempos pelos cientistas, mas não pode ser explicada apenas pelo processo que acabo de mencionar.

Durante quatro anos, o físico Stefan Shuster e sua aluna de PhD Peggy Gerullis, ambos da Universidade de Bayreuth, na Alemanha, estudaram a hidrodinâmica dos jatos d’água disparados pelos peixes e, graças a experimentos com peixes treinados para atingir atingir insetos localizados perto de um aquário, acreditam ter desvendado o segredo da sua precisão.

Em artigo publicado no periódico Current Biology, Shuster e Gerullis afirmam que o peixe-arqueiro ajusta a velocidade dos jatos, tornando-os mais fortes e concentrados, características que otimizam a caça. Para tanto, o animal controla o ritmo de abertura e fechamento da boca, alterando as propriedades da água lançada.

Após a análise de horas de material gravado por câmeras de alta velocidade (assista ao vídeo logo acima), os pesquisadores chegaram à conclusão de que, quando precisam atingir alvos mais distantes a, digamos, 60 centímetros da superfície da água, o peixe jorra água por um período maior, abrindo a boca de maneira gradual; por outro lado, quanto mais próximo o alvo, mais rapidamente o peixe abre e fecha a boca, portanto, atirando menos água.

Descobriu-se, ainda, que a velocidade da água no final do jato é superior à observada no começo deste (a boca), virtude essencial para que a água atinja o alvo com força suficiente para desestabilizá-lo.

De acordo com Shuster, o uso que o peixe-arqueiro faz da água é “análogo a um humano atirando um graveto”, constituindo o uso de uma ferramenta. Se apenas atirasse a água, esta não contaria como uma ferramenta do peixe, uma vez que ele não a modificaria. Porém, vemos que ele a molda de acordo com sua necessidade, bem como o faz um humano quando remove os ramos do graveto ou o afia, aprimorando-o.

O vídeo empregado neste artigo foi originalmente publicado no canal nature video do YouTube.

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é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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