Leitura das mãos: estudo encontra pistas do uso de ferramentas por hominídeos

 

Exemplo de preensão de precisão: mão humana moderna segura osso do polegar de um Australopithecus africanus. Crédito: T.L. Kivell e M. Skinner
Exemplo de preensão de precisão: mão humana moderna segura osso do polegar de um Australopithecus africanus. Crédito: T.L. Kivell e M. Skinner




Enquanto você escreve com um lápis, controlando-o entre o polegar e as pontas dos dedos, sua mão está utilizando a preensão de precisão, aptidão supostamente única aos humanos modernos e seus ancestrais mais recentes que os tornou capazes de manusear ferramentas complexas. Um novo estudo sugere, no entanto, que a evolução dessa habilidade pode ter ocorrido mais de meio milhão de anos antes do que se imagina.

As mais antigas ferramentas de pedra já descobertas foram encontradas na Etiópia e datam de 2,6 milhões de anos atrás. Porém, o autor desses artefatos ainda não foi claramente identificado, uma vez que mais de uma espécie de hominídeo habitava a região no período, contando as do nosso gênero, Homo, e as do gênero Australopithecus: A. afarensis — à qual pertence o notório esqueleto de Lucy — e A. africanus, entre outras.

Como ferramentas de pedra (e ossos possivelmente cortados por elas, datados de mais de 3 milhões de anos atrás) foram encontrados em locais ocupados por fósseis de Australopithecus, suspeita-se que este gênero tenha sido capaz manejar objetos habilmente.

Dada a dificuldade de que fósseis completos das mãos sejam encontrados, os pesquisadores dependem de pistas deixadas no interior de alguns ossos dos dedos para determinar se uma espécie tinha a capacidade de preensão de precisão. De fato, estudos prévios haviam demonstrado que os ossos das mãos da australopitecina Lucy possuía algumas características associadas à precisão, indicativo de que a espécie A. afarensis começava a utilizar as mãos de maneira próxima à nossa.

“Lendo” as mãos

Com o uso de aparelhos de tomografia computadorizada, o casal de paleoantropólogos Tracy Kivell e Matthew Skinner, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, e seus colegas investigaram o tecido ósseo esponjoso — tipo de tecido ósseo de aparência porosa que se alinha nos ossos de acordo com a intensidade da pressão mecânica exercida sobre estes — de mãos e dedos de hominídeos que viveram há 2-3 milhões de anos.

O tecido ósseo esponjoso se adapta em função do uso das mãos. Assim, no exemplo de alguém que constantemente manuseia lápis ou canetas para escrever, o tecido esponjoso forma filamentos, denominados trabéculas, nas pontas dos dedos, objetivando proporcionar maior força, densidade óssea e, consequentemente, estabilidade nos locais onde se aplica mais pressão.

É possível, então, concluir que o uso da preensão de precisão, ao alterar a estrutura óssea, produz certa assimetria na densidade do tecido ósseo da base do polegar e nas laterais dos ossos que compõem as articulações. Já quando analisamos o modo como chimpanzés agarram galhos de árvores, por exemplo, percebemos que a densidade óssea se distribui de maneira mais homogênea.

Em artigo publicado online na Science, os pesquisadores descreveram os resultados das análises de ossos das mãos de quatro espécimes de A. africanus que habitaram a África do Sul, concluindo que existe assimetria no padrão das trabéculas, bem como o existe nos humanos modernos e nos neandertais, que utilizavam ferramentas habitualmente. O mesmo estudo verificou a ausência de padrões trabeculares nos ossos de outros australopitecinos, inclusive o A. afarensis.

Para os autores, o A. africanus usava uma preensão de precisão parecida com a humana “muito mais cedo e mais frequentemente do que previamente considerado”. Entretanto, os indícios ainda não permitem inferir que a espécie fazia uso cotidiano de ferramentas complexas, pois a preensão de precisão poderia ter tido outras finalidades (como arrancar plantas do solo e escalar, por exemplo, ou utilizar ferramentas de madeira, dificilmente conserváveis no registro fóssil).

A presença de mais ferramentas em sítios paleontológicos do gênero Australopitechus seria necessária a fim de que os cientistas tenham evidências diretas de seu manuseio por parte do A. africanus, argumenta Matthew Tocheri, especialista do programa Human Origins, do Instituto Smithsonian.

O que se pode afirmar, por enquanto, é que a semelhança entre os padrões trabeculares do A. africanus e os de humanos modernos sugere que os hominídeos possuíam a capacidade de manusear ferramentas de pedra muito antes do que pensamos.

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.